quarta-feira, 8 de outubro de 2014

Peter Gøtzsche. "Os preços da medicação inovadora são uma tentativa de extorsão"

Créditos: Marta F. Reis
publicado em 7 Out 2014 - 05:00

Médico dinamarquês tem comparado indústria farmacêutica com a máfia. Defende que os médicos têm de aprender a dizer "não obrigado"

Peter C. Gøtzsche dedicou os últimos anos a estudar o modus operandi da indústria farmacêutica, onde começou a carreira como delegado de propaganda. O trabalho resultou num livro nas bancas há um ano, este Verão publicado em Espanha e prestes a sair em Itália, Alemanha, Rússia ou Coreia. O conversou com o médico dinamarquês que em Setembro apareceu no programa de Jon Stewart. "The Daily Show" a comparar a indústria com os cartéis de droga. Gøtzsche afirma que o sector do medicamento é um sistema corrupto que contribui com as suas omissões e marketing para a morte de milhares de pessoas. No caso da nova medicação da hepatite C, vê um problema recorrente: explorar ao máximo um monopólio saqueando o erário público.
O que o levou a escrever este livro?
Fi-lo para acordar as pessoas. Tudo começou no Verão de 2012, quando decidi fazer uma pesquisa no Google com fraude à frente do nome das maiores farmacêuticas. Tive 500 mil a 27 milhões de resultados por cada empresa que pesquisei e fui constatando que os esquemas se repetiam. As empresas mentem sistematicamente sobre os seus resultados, escondem riscos e exacerbam benefícios, o que leva as pessoas a pensar que os medicamentos só trazem benefícios. Reuni uma série de exemplos e informações sobre situações muito graves, em que inclusive têm sido ocultadas mortes.
No início da sua carreira trabalhou como delegado de propaganda médica. Recorda-se de se ter sentido enganado?
Numa das empresas em que trabalhei estava encarregado de vender um novo tipo de antibiótico e numa das campanhas tínhamos de apresentá-lo como um medicamento mais eficaz contra a sinusite aguda e informávamos os médicos de que havia um estudo a demonstrar que o fármaco penetrava melhor na mucosa dos senos nasais do que o que havia até então. Fiquei perplexo e senti-me até humilhado quando um dos médicos me disse que era impossível medir a concentração de antibiótico na mucosa nasal.
Escreve que é muito fácil convencer os médicos a actuar erroneamente.
É a natureza humana. Se a informação que recebem sobre os medicamentos vem de entidades que até são generosas, lhes oferecem dinheiro, jantares e até mulheres - há casos em que a indústria chega a pagar acompanhantes de luxo -, fica-se com um sentimento de lealdade. Todas as pessoas que lidam com a indústria farmacêutica acabam por ser objecto de algum tipo de suborno, que tem o intuito de simplesmente as levar a vender mais.
Enquanto médico, alguma vez se sentiu subornado?
Há 25 anos participei num encontro de um dia em Paris patrocinado por uma farmacêutica e quando íamos para o jantar deram-me um envelope. Quando o abri mais tarde tinha uma nota de mil dólares, um valor absurdo pela presença de um jovem médico dinamarquês.
Esses pagamentos ainda existem?
Tudo o que ajude a vender medicamentos pode acontecer. Não é preciso ir tão longe, o facto de a indústria pagar viagens a congressos é uma forma de influenciar.
Mas não é importante ir a congressos, até para ficar actualizado?
Os médicos não precisam de ir a congressos com viagens pagas pelas farmacêuticas. Se não têm dinheiro para ir, fiquem em casa. Podem ler as conclusões em revistas médicas. Têm de aprender a dizer "não, obrigado". Nos casos em que se justifica irem, por exemplo para apresentarem trabalhos, não é preciso a viagem ser paga pela indústria. Podem candidatar- -se a financiamento ou a bolsas.
Ao longo desta investigação, o que é que mais o perturbou?
Talvez o dado mais assustador tenha sido perceber que na área da psiquiatria a indústria está a aumentar o risco de suicídio entre os jovens ao mesmo tempo que diz protegê-los. Pelo menos três grandes empresas que vendem inibidores selectivos da recaptação de serotonina, manipularam informação sobre o risco de suicídio. Por outro lado, apesar de nem todos os casos serem reportados, está demonstrado que os antidepressivos aumentam o risco de suicídio em particular antes dos 25 anos. Os jovens não devem tomá--los. Penso que também é perturbador pensar que os efeitos adversos dos medicamentos são a terceira causa de morte na Europa, depois dos problemas cardíacos e do cancro, e usamo-lo muitas vezes com pouco critério.
No seu livro descreve a psiquiatria como o paraíso das farmacêuticas.
Como as definições das perturbações mentais ainda são pouco claras, é uma área fácil de manipular. Estou convencido que actualmente os medicamentos e a forma como são usados causam mais mal que bem: quando muito deviam ser usados em situações agudas e só em alguns doentes, mas não é isso que acontece.
É muito crítico dos ensaios clínicos.
Não podem ser considerados credíveis a partir do momento em que não temos acesso a todos os dados, que ficam na posse de quem tem maiores conflitos de interesses - as empresas interessadas em vender os seus produtos. Os reguladores estão bloqueados: o que temos neste momento é semelhante a alguém que se apresenta numa oficina para o seu carro ser avaliado mas em vez de levar o automóvel para o mecânico fazer as verificações leva os relatórios que o próprio produziu em casa. Ou um julgamento em que o réu faz todas as diligências. Permitimos que a indústria farmacêutica enriquecesse tanto e se tornasse tão poderosa que é muito difícil alterar um sistema inquinado.
Como se resolve?
Precisamos de uma revolução. Na minha opinião, a indústria não devia ser autorizada a fazer ensaios dos seus medicamentos. Idealmente, o desenvolvimento dos medicamentos devia ser um empreendimento público, assim como o seu marketing. Mas antes de mais os ensaios deviam ser iniciativas públicas, independentes.
Pagas com que dinheiro?
A indústria pagaria para o seu medicamento ser avaliado, mas garantir-se-ia independência na análise. Após esses estudos, se se verificasse que os medicamentos novos não são eficazes, seguros ou vantajosos, não os comprávamos.
Em Portugal tem havido uma guerra de forças em torno da nova medicação para a hepatite C. A empresa pediu inicialmente 48 mil euros por tratamento, preço que o governo diz ser incomportável. Quem tem razão?
Propostas desse género são extorsão, chantagem e só resultam de a empresa ter aí um monopólio que quer explorar. Têm a noção de que é muito difícil um político aparecer na televisão a dizer que é impossível tratar todos os doentes com hepatite C porque não há dinheiro e cobrará o máximo que conseguir.
O medicamento não é benéfico?
Não estudei esse medicamento em particular, mas o que dita o preço nunca é isso - é a empresa ter um monopólio.
Um dos argumentos é que é preciso pagar o investimento.
Esse argumento é uma treta. É um dos mitos que abordo no livro, o de que os medicamentos são tão caros por causa dos custos elevados de investigação e produção. Costumamos ouvir dizer que comercializar um novo medicamento pressupõe um investimento de 800 milhões de dólares mas este número é falso, resulta de análises financeiras das próprias empresas. A zidovuvina, o primeiro medicamento contra a sida que saiu para o mercado, foi sintetizada por um centro da Fundação contra o Cancro no Michigan em 1964. A farmacêutica que o desenvolveu gastou muito mas mesmo assim quando foi posto à venda em 1984 o custo por doente era de 10 mil dólares. Os contribuintes patrocinam a indústria de muitas formas, muitas vezes porque a investigação básica nasce nas universidades e depois porque os remédios são comparticipados. Os preços a que a nova medicação chega ao mercado são semelhantes a uma situação de resgate de reféns.
Como se contraria essa realidade?
Os governos não devem aprovar novos medicamentos sem negociar preços e se for muito alto devem dizer não.
Como se explica isso aos doentes?
Esse é o maior problema e muitas associações de doentes acabam por ser manipuladas pela indústria da mesma forma que os profissionais de saúde. Penso que a solução está em a União Europeia unir--se para dizer basta pois aí terá uma posição de força: se todos dissessem não, a empresa teria de baixar preços. Isto tem de ser claro para os doentes, de outra forma os gastos serão cada vez mais insustentáveis. Estou convencido de que se não tomássemos tantos medicamentos de utilidade duvidosa e se a medicação tivesse o preço adequado a despesa com medicamentos podia baixar 90% e teríamos doentes mais saudáveis e a viver mais tempo.
Portugal fez recentemente uma proposta nesse sentido na UE, para o preço da medicação da hepatite C ser proporcional ao do Egipto, onde é vendido por 700 dólares. Mas entretanto Espanha já comparticipou a 25 mil euros...
Se não há acordo, porque é que não se compra o medicamento no Egipto? Acho que é a pergunta a fazer.
Enquanto médico, contrariava os pedidos de remédios por parte dos doentes?
Penso que foi o meu maior contributo na medicina interna, sobretudo nos idosos que muitas vezes tomam vários medicamentos ao mesmo tempo e que comprometem as suas funções cognitivas. Quando paravam, rejuvenesciam. Os doentes precisam de ser mais sensibilizados: não devem fazer parte de associações que aceitem favores da indústria, devem perguntar aos médicos se recebem dinheiro ou outros benefícios da indústria e em caso afirmativo mudar de médico. Não devem tomar medicamentos a menos que seja indispensável e, quando é possível, devem optar por substâncias no mercado há pelo menos sete anos, dado que é neste período geralmente que se verificam riscos e acabam por ser retirados.
No seu livro conclui que as farmacêuticas chegam a ser piores que a máfia.
Existe nitidamente uma situação de crime organizado. Não estudei todas as empresas mas as maiores fazem todas o mesmo: escondem riscos e exageram benefícios, mentem no marketing e pagam a concorrentes para manter monopólios. É um sistema corrupto.
Países mais pequenos como Portugal estão mais imunes a esses lóbis?
Não creio que haja diferenças, o dinheiro da indústria vem de todo o lado.
Mas é muito mais comum ouvirmos esses casos de fraude nos EUA.
São melhores a investigar os escândalos e têm mais recursos para compensar os insiders que denunciam. Penso que devíamos ter mais essa postura na Europa.
Tem sido alvo de ameaças ou intimidações por causa destas declarações?
Não.
Isso não o surpreende?
Não. Sabem que o que digo está muito bem documentado. Quando não se consegue argumentar contra uma verdade inconveniente, o melhor é ficar calado.