sábado, 18 de outubro de 2014

Comer mais gordura pode ser bom para a saúde


17/10/2014 - 08:41
Ao contrário do que diz o senso comum e os conselhos de muitos médicos dos últimos anos, comer mais gordura pode ser benéfico para a saúde. Diversos estudos recentes apontam para o facto de que certos tipos de gorduras - não todos - podem sair da lista de "vilões", seja para quem quer emagrecer ou evitar problemas cardíacos, afirma o médico Michael Mosley, que apresenta o programa da BBC "Trust me, I'm a Doctor", avança o Diário Digital.

Se a crença era a de que gorduras saturadas criavam coágulos nas artérias e engordavam, novas evidências mostram que consumi-las pode, na verdade, ajudar a perder peso e ser benéfico para o coração.

No início do ano, por exemplo, um estudo liderado pela British Heart Foundation causou polémica. Cientistas de Oxford, Cambridge e Harvard, entre outros, examinaram a ligação entre o consumo de gordura saturada e doenças cardíacas.

Apesar de analisar o resultado de quase 80 estudos envolvendo mais de meio milhão de pessoas, os cientistas não encontraram evidências convincentes de que comer gorduras saturadas implicava um maior risco de problemas cardíacos.

Mais do que isso, quando analisaram os testes sanguíneos, descobriram que altos níveis de gorduras saturadas estão associados a um menor risco de doenças coronárias. E isso é válido especialmente no que diz respeito ao tipo de gordura saturada encontrada no leite e outros lacticínios, conhecido como "ácido margárico".

A pesquisa provocou desconfiança por parte de alguns especialistas, que temem que o resultado possa confundir as pessoas e que passe não uma mensagem de que é benéfico consumir mais de algumas outras formas de gordura, mas sim de que é bom comer muito mais gorduras saturadas até em doces.

E isso é preocupante, segundo eles, porque é sabido que os elevados níveis de obesidade no mundo têm vindo a ser inflamados por petiscos como muffins, bolos e salgados, todos com altos índices de gordura, açúcares e calorias.

Kay-Tee Khaw, de Departamento de Saúde Pública da Universidade de Cambridge, foi enfática ao dizer que a pesquisa não é uma licença para se encher de "junk food". Mas concordou que os resultados tornam o cenário nutricional mais complicado.

"É complicado no sentido de que alguns alimentos que têm muitas gorduras saturadas parecem reduzir doenças cardíacas."

Segundo a especialista, há fortes evidências de que comer oleaginosas algumas vezes por semana reduz o risco de problemas do coração, apesar de conterem gorduras saturadas e insaturadas. A investigadora afirma ainda que as provas disso são menos fortes em relação a lacticínios, e vê poucos problemas no consumo de manteiga e leite.

Mas, deixando de lado as questões cardíacas, de qualquer forma, as gorduras são prejudiciais porque engordam, certo? Não necessariamente.

Um estudo recente produzido pelo Scandinavian Journal of Primary Health Care, intitulado "Alto consumo de gordura de lacticínios ligado a menos obesidade" questiona essa relação.

No estudo, investigadores analisaram 1.589 suecos durante 12 anos. Os que adoptavam uma dieta baixa em gorduras – cortando com a manteiga, leite desnatado e doces tinham mais tendência a terem excesso de peso na região abdominal do que os que consumiam manteiga, leite A e doces.

Uma das razões para isso pode ser o facto de que consumir gordura faz a pessoa ficar saciada rapidamente, então, quando esta é cortada da dieta, o que se faz é substituir (conscientemente ou não) calorias por outros alimentos. E frequentemente essa substituição vem em forma de hidratos de carbono como pão branco e massas.

O que se está a concluir até ao momento é que não está a dar um “livre passe” para comer fritos ou colocar doces em tudo, porque mesmo o coração não sendo prejudicado pelo consumo de gorduras, já está provado que ele é sim afectado por uma elevada ingestão de calorias.

"Acredito que a maioria das gorduras saturadas, especialmente a de alimentos processados, não são saudáveis", disse Michael Mosley. "Mas voltei a consumir manteiga, iogurte grego e leite semidesnatado, além de estar a comer muito mais castanhas, nozes, peixe e vegetais".