Tortura
chinesa na cama
Insônia contemporânea não impede que pessoa pegue no
sono. Mas atormenta a noite com interrupções
SÃO PAULO Vencer a insônia hoje está além de deitar e dormir poucos
minutos depois. O grande desafio é manter o sono durante a noite toda. Dados de
um estudo recente com dez mil pacientes conduzido por Thomas Roth, um dos
principais especialistas em insônia, do Centro de Estudo do Sono do Hospital
Henry Ford, mostram que a população que antes se queixava porque demorava para
dormir, agora sofre por acordar várias vezes durante a noite. E isso também é
classificado como insônia, mas poucos sabem. Em 1996, 47% da população
americana acordava várias vezes à noite. Hoje, esta queixa ultrapassa os 60%.
Estima-se que mais da metade das pessoas que sofrem de insônia não procuram
ajuda médica, o que acendeu sinal de alerta para os especialistas.
— O conceito de insônia se modificou. Não é só a dificuldade de iniciar
o sono, mas também a sua manutenção. O problema é que as pessoas acham normal
acordar não restaurado, não descansado e iniciar o dia sem energia para encarar
a jornada que está por vir — afirma a neurologista Andrea Bacelar,
vice-presidente da Associação Brasileira do Sono.
Ao não procurar tratamento, a pessoa subestima o que a falta de um sono
pleno faz no organismo. Quando não se dorme bem, as doenças degenerativas
aparecem precocemente, assim como o diabetes, a hipertensão e os problemas de
tireoide. A privação crônica de sono pode alterar o sistema imunológico,
deixando a pessoa mais vulnerável a resfriados e gripes. E pode comprometer a
eficácia da vacina para essas doenças. Quando se toma uma vacina, por exemplo,
é preciso ter uma boa noite de sono para ela ter o efeito esperado.
Dormindo dá para perder peso, ainda que pouco: em média, meio quilo por
noite. Sem dormir, engordamos. Outras razões para a falta de sono são a
alimentação inadequada, o aumento da ansiedade, o sedentarismo e a evolução da
tecnologia, que conecta as pessoas 24 horas por dias mas deixa pouco tempo para
deitar a cabeça no travesseiro e descansar.
Estresse pode alterar o sono
A redução do tempo ou a privação de sono ainda aumentam a irritabilidade
e a liberação de cortisol e ACTH (hormônios relacionados ao estresse) no
organismo. Pesquisas realizadas em animais demonstraram que o estresse é capaz
de alterar o sono de ratos.
— Acordar várias vezes durante a noite causa a mesma angústia que a
dificuldade para iniciar o sono. Quando você só demora para dormir é uma coisa,
mas, quando acorda muito no meio da noite, aí sim é necessária uma investigação
precisa para saber quais são as causas. Problemas intrínsecos ao sono podem
levar a um quadro de apneia — diz a neurologista Dalva Poyares, coordenadora de
pesquisa do Instituto do Sono de São Paulo.
A insônia clássica, aquele velho problema de demorar para dormir, tem
diminuído. Em 1996, 51% das pessoas tinham essa queixa, mas, de acordo com o
estudo de Thomas Roth, o índice caiu para 39%. Já a insônia associada a outras
doenças aumenta os motivos para despertar durante a madrugada e resulta numa
noite maldormida.
— Se a pessoa tem transtorno de ansiedade ou fibromialgia, por exemplo,
pode pegar no sono, mas desperta várias vezes. Ou então fica no sono
superficial, aquele que não se aprofunda. Ouve o cachorro latir, uma porta se
abrir, se alguém entra no quarto — diz Andrea Bacelar.
Falta de concentração e angústia
O consultor Danilo Tovo, de 42 anos, apesar de conviver com a insônia
durante anos, pensava que era algo passageiro. Só resolveu procurar ajuda
médica em novembro do ano passado, depois que a dificuldade de concentração, a
irritação, a angústia e problemas de memória passaram a fazer parte do seu dia
a dia. Demorou cinco anos para tomar a iniciativa.
— As pessoas na minha família dormem pouco. Com o passar do tempo senti
o peso de um sono comprometido, fiquei refém — conta.
O neurologista Luciano Ribeiro, que também trabalha no Instituto do
Sono, alerta que três meses de insônia já são tempo suficiente para procurar um
médico.
— Infelizmente, o paciente chega ao especialista orientado por outro
profissional não especializado, inclusive tendo tomado medicamentos inadequados
ao quadro. O tratamento inclui mudanças de hábitos e, às vezes, remédios —
explica Ribeiro.
Levantamentos científicos mostram que, em média, 30% dos adultos com
dificuldades para dormir relatam ter procurado ajuda profissional para esse
problema. E somente 19% dos adultos com problemas relativos ao sono que
procuraram um profissional de saúde foram à consulta especificamente para
discutir as dificuldades para dormir.
— Outros estudos internacionais revelam que as pessoas com dificuldade
em iniciar e manter pelo menos seis horas de sono por dia têm quatro vezes mais
riscos de morrer mais cedo. Se a insônia for associada ao diabetes e à
hipertensão, esse risco relativo aumenta para sete vezes — acrescenta Andrea
Bacelar.
As estatísticas mostram ainda que as mulheres sofrem mais de insônia do
que os homens. São três mulheres para cada homem. Não se sabe quais são os
motivos reais, porém, segundo Dalva Poyares, uma pista pode estar no fato de a
mulher ser mais suscetível ao estresse:
— A estratégia do organismo masculino para lidar com o estresse é
diferente da do feminino. A mulher tende a ser mais preocupada, a pensar demais
num assunto.
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